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Restrição ou oportunidade?

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A primeira reação quando recebemos um diagnóstico de alergia ou intolerância alimentar é de nos sentirmos privados, punidos, excluídos, quase injustiçados.  Minha proposta hoje é olharmos para essa situação sob uma nova perspectiva. Será que em vez de uma limitação não seria uma oportunidade?

Comecei a pensar sobre isso por causa do trabalho que desenvolvo em um spa que segue a filosofia da naturopatia. Lá, toda a alimentação é vegana, ou seja, 100% isenta de produtos de origem animal, inclusive leite e seus derivados. Tampouco se usam refinados (farinha branca, arroz polido) ou óleos vegetais. Tudo em prol de uma alimentação que desintoxica e tonifica. Todas as terças e sextas, quando dou palestras aos hóspedes para explicar os benefícios dessa alimentação, vejo um certo ar de desespero nos rostinhos se perguntando “o que eu vou comer então, se não posso tomar leite, não posso comer queijo e o pãozinho francês foi banido da minha vida?”.

Daí um dia me veio um estalo. Por que ficamos olhando para tudo aquilo que não podemos comer em vez de olhar para o universo de alternativas que temos à nossa disposição? Se a natureza nos oferece inhame, cará e mandioca, por que insistimos em comer apenas batata? Se podemos apreciar tantos cereais, como milho, aveia, quinoa, arroz integral, por que só queremos saber de trigo, seja no pão, no biscoito, no macarrão ou na pizza? Se na feira encontramos rúcula, couve, rabanete, por que só damos bola para alface e tomate? E se podemos extrair sumos ou “leites” de castanhas, do coco, e até dos cereais, por que essa fixação com o leite de vaca? Quem será que está restringindo a nossa alimentação?

Se pararmos para analisar, a maioria dos casos de alergias e intolerâncias ocorre com alimentos ou substâncias a que estamos super-expostos, como é o caso do leite de vaca, do glúten e, agora, dos corantes e conservantes.  E é justamente por isto que é tão difícil lidar com a restrição. Porque tudo nas prateleiras dos supermercados, nas reuniõezinhas do trabalho ou nas festinhas de criança contém glúten, leite ou os dois.

Então convido vocês a pensar as intolerâncias e alergias alimentares não como uma restrição, mas como uma oportunidade. Uma oportunidade de se abrir ao imenso leque de opções que temos ao nosso alcance. Uma oportunidade de diversificar a alimentação, de experimentar novas receitas e de estimular a curiosidade e a criatividade para novos sabores.

É claro que há casos em que as manifestações são muito severas e o simples contato físico com a substância dispara a reação. Mas, na maioria dos casos, um olhar mais positivo sobre a impossibilidade de comer determinado alimento pode ajudar bastante a lidar com a questão. Em vez de olhar para o que “não pode”, vamos passar a enxergar tudo de bom que a natureza tem para oferecer.

Falo por experiência profissional e pessoal. Depois de descobrir que o trigo não me faz bem, reinventei a tapioca e o cuscuz no meu café da manhã, aprendi a fazer panquecas com farinha de arroz e descobri que a quinoa dá um ótimo tabule. A família, os amigos e o namorado agradecem. Sempre que vêm na minha casa, encontram uma novidade gostosa. Aliás, as amigas devem estar chegando para o jantar. O menu? Conto no meu próximo post.

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Sobre o autor

Nutricionista e jornalista, Maira realiza oficinas de culinária vegetariana, sem glúten e sem lactose, além de atender pacientes em seu consultório em Brasília, DF. "Desde 2004, quando me tornei vegetariana, tenho estudado a importância da alimentação na saúde e na qualidade de vida e procurado desenvolver receitas práticas e saborosas que apliquem esses conceitos. Para mim, cozinhar é um hobby delicioso e comer, um momento mais gostoso ainda." Maira é especialista em Nutrição Funcional e é autora do blog DaHora Culinária Vegetariana

21 Comentários

  1. Tô sofrendo muito. Confirmei a intolerância há duas semanas. Na primeira, pensei exatamente assim "ah, menos mal, vou me alimentar mais saudavelmente…", agora, ao término da segunda, tenho vontade de chorar cada vez que vejo um brigadeiro. Está sendo muito difícil a adaptação, praticamente tudo que eu comia durante o dia tinha um pouco, que seja, de lactose… até meu pãozinho com requeijão, aparentemente tão inofensivo, não posso mais comer. Almoço fora de casa todos os dias e é muito difícil não comer um risotinho, uma carne com molho ou uma massa. No trabalho, quase semanalmente o pessoal traz comidas gostosas, além de festinhas com docinhos e salgadinhos. Finais de semana sem pizza, massas e afins… como é difícil… Outra coisa que muito me incomoda é a falta de sensibilidade social das pessoas, que mesmo sabendo do seu problema, ficam tentando insistir: "só um pouquinho", "só um pedacinho", "ahhh, só isso não vai fazer mal" e blá, blá, blá… Dá dor no coração.

    • Bruna,
      Legal o seu depoimento. Entendo que não é nada fácil essa história de abandonar aqueles sabores que sempre curtimos de uma hora pra outra. Mas acredite, há muitas coisas saborosas que vc pode comer. A começar pelo fato que vc pode usar o leite baixa lactose para tomar um café com leite ou mesmo preparar diversos doces. Há queijos e iogurtes sem lactose que vc pode consumir, fora uma infinidade de outros produtos. A questão principal é vc criar uma nova rotina pra vc. Leve lanches para o seu trabalho, faça escolhas diferentes no buffet de almoço. E quando vc quiser comer aquela pizza, use a enzima lactase. Tenho certeza que em breve vc vai trocar o sofrimento por boas surpresas. abs

      • Oi Luciane! Obrigada pela resposta e o incentivo, tenho certeza que aos poucos vou me adaptando. Acho que a fase inicial é a mais difícil e às vezes bate um desespero (como quando escrevi o depoimento acima!), mas logo passa… não dá pra transformar isso na pior coisa do mundo pq realmente não é, existem várias opções e modos de se levar uma vida melhor. Preciso aprender a fazer desse limão, uma limonada (sem leite!!) haha! Abs!!

  2. maria olimpia on

    Maira, que exemplo bacana!!!! Penso exatamente como você, mas já tenho quase 60 anos, e você tão jovem já consegue enxergar nossa "limitação" não como um castigo, mas como uma porta que se abre a um mundo de novos sabores e um desafio culinário estimulante… me descobri intolerante ao leite há alguns anos depois de morrer de dor em minhas articulações inchadas por quase 8 anos, Desde então (claro, após o primeiro impacto e à famosa pergunta "e agora, o que vou comer????" ) não paro de descobrir novas receitas, e minhas amigas adoram experimentar meus paezinhos, bolinhos, waffles, brownies, etc…. que, é claro, vão comigo para todo lado. parabéns
    maria olimpia

  3. Me ajuda muito ter neste site exemplos para seguir e estímulo… Apesar de já ter em mãos o resultado do exame, não havia ainda confirmado o meu diagnóstico, o que ocorreu hoje. Antes disto já estava na internet pesquisando e analisando o comportamento do meu corpo na ausência da lactose, desde o dia do exame que mede a curva de tolerância a lactose, que aliás aumentou meus sintomas de forma extrema e sofrida, sei que podem imaginar a situação… Então, gostaria de agradecer pelo texto e pela corrente de ajuda mútua que se forma ao redor desta situação comum a todos frequentadores deste site.
    abraços, Helena.

  4. Oi Luciane! Ótimos artigos, ótimo site, ótimas dicas!!
    Sou vegan e só esclarecendo uma coisa: o vegano é aquele que tem uma alimentacao em prol da ética, ou seja, nao comemos nada que contribua com violencia e desrespeito pelos animais nao-humanos. Então, nao é por uma alimentacao para desintoxicar e tonificar. Isso é uma consequencia. Bjo

    • Olá Jos,
      Obrigada! É ótimo saber que vc curte nosso trabalho. Acho muito interessante o veganismo e os princípios de respeito aos animais. Em relação ao tipo de trabalho desenvolvido no spa onde a Dra. Maira trabalha, acredito que ela esteja se referindo ao trabalho completo do spa, cujo objetivo é desintoxicar e tonificar, mas não específicamente ao veganismo. De qualquer forma, a gente agradece os esclarecimentos!
      abçs,

  5. Realmente a IL mudou muito a minha vida, mas para melhor. Após descobrir a intolerância de início é claro bateu o desespero, oque vou comer? Uma chocólatra convicta , adoradora de leite e derivados. Após algum tempo percebi que a diversidade era bem grande e que a IL me fez descobrir novos sabores, novas receitas e muito melhor que isso uma vida alimentar mais saudável. O bom de tudo é que perdi peso e agora me sinto mais bonita, mais leve , pele boa , intestino regular. Calro que ás vezes tenho desejo de bolo em festa de aniversário, churros de doce de leite do circo, e tantas outras gostosuras, mas logo passa. Compro meu chocolate de soja e o desejo se transforma em prazer com sabor saudável. Bjs

    • Olá Gil,
      Muito legal seu depoimento. Eu também acredito que a IL nos ajuda a repensarmos nossos hábitos alimentares e mudarmos para melhor!
      Abçs,

    • É muito gratificante acompanhar os resultados que vc alcançou, parabéns por sua determinação, porque todo sucesso envolvendo uma grande mudança como hábitos alimentares é um conquista adquirida dia-a-dia e que muitas vezes nem todos conseguem vencer. Aqui em casa estamos nos primeiros passos rumo a essas mudanças alimentares, por causa de uma das filhas estamos remanejando o cardápio de todos da casa e consequentemente da família quase que inteira, sem maiores traumas estamos descobrindo aos poucos o que podemos tirar de proveito através dessas mudanças, assim como no artigo publicado por Maira, não focar apenas nos alimentos restritos mas sim aproveitar oportunidade de provar novos sabores e criar novas expectativas que melhorem a nossa qualidade de vida, porque se a saúde de um filho está bem tudo vai bem. Obrigada por compartilhar sua experiência pessoal conosco, são atitudes assim que nos faz mais confiantes e não nos deixa pensar que estamos sozinhos nesta longa caminhada. Abraços,

  6. Concordo, mas é um processo lento, hoje até consigo olhar para um doce que em outro momento "morreria" se não provasse e hoje pergunto tem uma fruta? Mas a vida corrida maltrata… em casa me sinto bem e como minha quinua, tomo meus chás e evito o leite e seus derivados, mas na rua me sinto a "chata" que não come nada, e que ninguém quer convidar para comer um lanchinho… saio com minha sacolinha com frutas, castanhas e almoço, mas é uma caminhada e tenho minhas recaídas e como o que não posso, passo mal e sofro… obrigada pelas palavras para refletir.
    Abraço Célia Ribeiro

  7. Mariana Campos on

    Olá, descobri alergia ao leite de vaca de minha filha de 2 anos e 10 meses e, desde de fevereiro deste ano, estamos tentando buscar esse equilibrio, viver sem crises alérgicas, mas não consegui. Ela sempre magra e com crescimento comprometido. Preciso encontrar respostas…. não explicação…. minha casa é 0% lactose e mesmo assim ela se contamina…não sei mais o que fazer….busca ajuda, apoioooo.

  8. Quando a minha filha de 14 anos foi diagnosticada com IL, suspendemos tudo na alimentação que tivesse até traços de leite… porque a reação era muito forte e ela ficava muito mal. Hoje, ela já aceita a idéia de utilizar lactase quando vai se alimentar fora, mas não encontro o LAC-DOSE que a gastro receitou… Alguém sabe como conseguir em Porto Alegre?
    Abraços,
    Clarissa / Porto Alegre, RS

    • clarissa,
      Já faz tempo que o Lacdose saiu do mercado. O que vc pode encontrar é a enzima lactase manipulada. Procure algumas farmácias de manipulação em Porto Alegre e leve sua receita. Uma das farmácias que eu costumava comprar a enzima era a Dermogral. Mas o que eu não gostava era o fato das cápsulas necessitarem refrigeração. Procure por uma farmácia que forneça as cápsulas sem necessidade de refrigeração pois assim é mais fácil tê-las na bolsa.
      abçs,

  9. Acabei de descobrir que minha filha de 6 anos é celíaca (alergia ao glúten). Até então era apenas alergia e intolerância ao leite. Eu tb sofro com a lactose. Eu já achava difícil inventar na cozinha, pois não tenho uma mão boa, e agora, com a exclusão do glúten… Maira, Seu post me emocionou e me motivou a buscar essas alternativas para alimentação da minha pequena. Deus nos abençoou em colocar no mundo pessoas como vc e Luciane, que nos ajudam tanto com sites como este. abraços, Karlla, Maceió/AL.

  10. Olá,
    Adorei o seu artigo! Meu filho é alérgico a leite e derivados, descobrimos qdo ele tinha 4 meses. No início fiquei meio apavorada pois não tinha idéia de uma vida sem leite mas aos poucos fomos nos habituando. Meu filho come de tudo frutas, legumes, verduras … Ele já esta com 4 anos e hoje estamos começando a liberar alguns derivados. O engraçado é que não estou gostando muito disso, sempre achei a alimentação dele muito boa, nutritiva. Qdo vejo a alimetação dos seus amiguinhos muitos biscoitos, bolos, balas, fast food. O problema é que a família do meu marido sempre viu essa intolerância como o fim do mundo – ele nunca vai poder comer o que os amiguinhos comem? Tadinho! Hoje aceitei fazer a liberação mas com restrições, dentro de casa será mantida a dieta dele e os derivados ficam para fora de casa.
    Vou passar pelo seu blog pois gostaria da receita da panqueca.
    Abraços,
    Renata

    • Oi, Renata.
      Acho que você está no caminho certo, procurando diversificar a alimentação do seu pequeno desde já! A família aos poucos vai cedendo e entendendo que não se trata de um "problema", mas de uma escolha consciente por uma alimentação mais natural e variada. Eu costumo brincar que o exemplo é o melhor argumento e não vale a pena bater de frente. Me manda um e-mail para dahoraculinaria@yahoo.com.br para que eu possa te mandar a receita da panqueca.
      Abraços,
      Maíra

  11. Simone Moraes Raszl on

    Maira, adorei seu artigo. Não sou vegan, mas sou intolerante à lactose e tenho colesterol e glicemia elevadas, o que me obriga a buscar novas alternativas na alimentação. O grande problema é que falta criatividade para utilizar estes novos alimentos. Onde podemos encontrar receitas?
    Um abraço,

    Simone

    • Oi, Simone.
      De vez em quando posto receitas no meu blog – dahoraculinaria.blogspot.com – sempre buscando a praticidade, já que minha vida também é bem corrida. Depois dá uma olhada e vê se te ajuda.
      Abraços,
      Maíra

  12. Concordo plenamente com vc, Maira. Pena q não tenho o menor talento para a culinária. Recentemente até procurei um curso de culinária sem lactose q foi citado aki no site, mas eles não oferecem mais o curso na Escola de Gastronomia, só em domicílio. Pra mim não dá. Mas ainda não desisti de aprender a cozinhar, não.

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